Havia uma cidade onde as palavras eram raras e preciosas. Não porque as pessoas não soubessem falar, mas porque, ao longo dos anos, o valor da linguagem havia se perdido. Os habitantes, ocupados demais em sobreviver, usavam apenas o necessário para a socialização: cumprimentos automáticos, ordens rápidas, frases feitas. Era como se o ar tivesse se tornado denso demais para carregar poesia.
Rosa era diferente. Desde pequena, encantava-se com os sons, as nuances, os ritmos das palavras. Na escola, enquanto seus colegas repetiam listas de vocabulário, ela ficava na biblioteca, ouvindo o folhear das páginas, saboreando cada letra, cada ilustração, viajava por entre os títulos e imaginando histórias que ainda não existiam, mas que poderiam vir a existir. Para ela, a linguagem era uma ponte — uma ponte que podia atravessar corações, memórias e mundos inteiros, e também criar novos, por que não?
Certa manhã, a menina recebeu uma carta. Não uma mensagem digital, nem um recado apressado, mas uma carta de verdade, escrita à mão com tinta azul. Não havia remetente, apenas um endereço, e uma única frase:
“Venha ouvir o que as palavras têm a dizer.”
Intrigada, ela decidiu seguir as instruções. Chegou a uma rua estreita, onde prédios altos bloqueavam a luz do sol, e encontrou uma porta simples, de madeira antiga. Ao bater, ninguém respondeu. Hesitante, empurrou a porta e entrou.
O que encontrou era impressionante: uma sala enorme, repleta de livros flutuantes, cada página virando sozinha, sussurrando palavras. Não havia pessoas, mas a linguagem estava viva ali. Palavras dançavam no ar, formando frases que se entrelaçavam como fios de luz. Rosa, sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Pela primeira vez, percebeu que palavras tinham peso, sabor e até cheiro. Um aroma de infância misturado com memórias esquecidas.
Ela se aproximou de um livro que flutuava à sua frente. Assim que tocou a capa, uma voz suave falou:
— Cada palavra tem sua própria história. Cada frase, um segredo. E cada silêncio, um significado.
Corada, com olhos brilhando feito estrelas à meia-noite, sorriu, maravilhada. Passou horas, talvez dias — ela não sabia medir o tempo ali — explorando aqueles livros vivos. Aprendeu que palavras podiam ser gentis, cortantes, consoladoras ou traiçoeiras. Que uma frase mal dita podia machucar, mas uma bem pensada podia curar. Que a linguagem era mais do que um meio de comunicação: era a própria alma da existência.
Quando finalmente saiu daquela sala, Rosa percebeu que algo nela havia mudado. A cidade parecia mais cinza, mais silenciosa, mas ela podia ouvir pequenos murmúrios que os outros ignoravam. As palavras que as pessoas diziam carregavam significados escondidos, e ela sentia a responsabilidade de entendê-las, de transformá-las em algo mais.
Decidiu, então, ensinar. Começou com os vizinhos, contando histórias simples. Primeiro, eles olhavam desconfiados, depois sorriam. Logo, as pessoas passaram a se encontrar na praça da cidade para ouvir Rosa ler poemas, contar contos e brincar com sons. A cidade, antes silenciosa e fria, começou a se encher de ecos. Ecos de risadas, ecos de frases cuidadosamente escolhidas, ecos de conversas que realmente significavam algo.
O poder da linguagem, que muitos tinham esquecido, estava ressurgindo. Cada palavra dita com atenção se tornava uma semente. Cada história compartilhada, uma ponte. Rosa, menina inquieta, que antes saboreava sozinha o gosto pelas palavras, sabia que não poderia mudar tudo sozinha, mas havia aprendido algo fundamental: a linguagem não era apenas uma ferramenta. Era um convite — para sentir, para refletir, para se conectar.
E assim, a cidade inteira começou a se lembrar de que falar não era apenas emitir sons, mas tocar corações. Que ouvir não era apenas captar ruídos, mas compreender o que não se diz. Que cada palavra, mesmo a mais simples, carregava a força de transformar mundos.
A menina continuou seu trabalho silencioso, mas incansável, e sempre que alguém perguntava o segredo de sua dedicação, ela sorria e dizia:
— As palavras têm vida. Só precisamos aprender a ouvi-las.
Aos poucos, a cidade que havia esquecido o valor da linguagem começou a florescer, não com prédios ou ruas, mas com histórias, memórias e palavras que ecoavam de boca em boca, lembrando a todos que viver também é comunicar.
“Pensar sem linguagem é um eco silencioso; falar sem filosofia é um som sem sentido.”
Por Seraphina Blaze (pseudônimo)
Mestranda em Letras UPF