No livro Curso de Linguística Geral, de Ferdinand Saussure (1919/2003), é apresentada a ideia de que a língua é um sistema no qual os signos só possuem significado quando colocados em relação uns com os outros. Este ensaio tem como objetivo discutir alguns conceitos defendidos por Saussure, como sistema linguístico, valor da língua, relações sintagmáticas e relações associativas. O objetivo é responder ao seguinte questionamento: qual é, afinal, o mecanismo da língua?
Primeiramente, entende-se a língua como um sistema. Ela é formada por peças que, juntas, compõem um todo organizado. Como em um jogo de xadrez: cada peça possui uma função, e os jogadores correspondem aos falantes. Para explicar essa definição, Saussure considera dois elementos fundamentais: as ideias e os sons. Ou seja, é necessário ter uma língua para pensar, e, para isso, ela precisa de uma matéria: o som (ou, no caso das línguas visogestuais, o gesto, embora Saussure se detenha apenas às línguas vocais). Uma analogia apresentada no livro que exemplifica essa relação é a de uma folha de papel: o verso representa a ideia/pensamento, e o anverso representa a matéria/som. Não há como rasgar um lado sem rasgar também o outro.
O valor linguístico, segundo Saussure, é arbitrário, ou seja, não há uma relação natural entre, por exemplo, a letra “C” e o seu som. Esse valor também é diferencial, pois, independentemente da caligrafia ou da cor em que a letra esteja escrita, seu significado permanece o mesmo. Um termo é definido pela diferença em relação a outro, o que se chama de oposição recíproca. Assim, “vaca” só é “vaca” porque não é “faca”. Um signo é o que o outro não é: “preocupante”, por exemplo, significa algo que “interessante” não significa, e vice-versa. Só é possível perceber isso ao compará-los dentro de uma língua. Dessa forma, as palavras nascem das diferenças entre elas, e até mesmo sinônimos possuem valores distintos.
Saussure também discute as relações sintagmáticas. Um sintagma é a combinação de vários signos que, juntos, formam sentido. Assim, um fonema ao lado de outro é um sintagma; o mesmo ocorre com morfemas. Uma metáfora interessante para compreensão desse conceito: o sintagma funciona como um “trenzinho de significados”, em que cada vagão corresponde a um signo colocado após o outro.
Já as relações associativas dizem respeito ao modo como o cérebro organiza e relaciona as palavras. Nossa mente cria “caixinhas” de associações, armazenando os termos de forma a facilitar escolhas durante a fala. Nesse sentido, a língua pode ser vista como o “tesouro interior” de cada indivíduo.
Portanto, Saussure demonstra que a língua funciona como um sistema organizado em que cada signo só tem valor quando colocado em relação aos outros. O estudo do sistema linguístico, do valor da língua e das relações sintagmáticas e associativas mostra que a língua não é apenas um conjunto de palavras, mas um mecanismo que estrutura o pensamento e possibilita a comunicação. Dessa forma, compreender esses conceitos ajuda a perceber melhor o funcionamento da linguagem e a importância que ela tem para a vida em sociedade.
Referência
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. Org. Charles Bally e Albert Sechehaye. São Paulo: Cultrix, 2003.
Por Patrícia Brum Sisnandes, acadêmica do Curso de Letras UPF