Há modos de se dirigir ao outro que parecem abertura, mas são moldura. Que pedem fala, mas não escuta. Que solicitam presença, mas querem função. A linguagem do convite, quando é moldada pela expectativa, pode disfarçar de escuta aquilo que é apenas organização de conteúdo.
Quando me convidaram para um podcast sobre superdotação, a princípio, aceitei. Havia gentileza, havia intenção de aprendizado. Mas logo as perguntas chegaram em uma versão prévia. Fixas. Fechadas. Antecipadas. E o gesto, que parecia me convocar à partilha, na verdade me empurrava para o lugar do exemplo. Queriam que eu falasse de mim. Mas só da parte que servia. A parte aplicável. A parte pedagógica. A parte que coubesse em uma pauta de formação. E, ali, algo em mim se recolheu. Não como recusa imediata, mas como hesitação que pressente o deslocamento.
As perguntas vinham todas ancoradas na experiência escolar. Como se minha história pudesse ser resumida a episódios didáticos. Como se minha fala não precisasse pensar, apenas contar. Como se a superdotação que me habita fosse redutível a dificuldades de adaptação ou estratégias de ensino. Mas o que sou não é aplicável. É atravessamento. É processo. É dobra. E não há como dobrar-se ao outro quando ele só quer escutar aquilo que já espera ouvir.
Ainda assim, escrevi aos estudantes. Com respeito, com cuidado. Apontei o incômodo, tentei nomear o que doía — não como recusa pura, mas como gesto de deslocamento. Eles me responderam com educação. Mas me devolveram a responsabilidade: “se as perguntas não servem, mande outras”.
Ali compreendi com clareza o que tantas vezes se repete: quando o incômodo do outro é lido como sensibilidade, e não como pensamento, há um esvaziamento da crítica. Há uma tentativa sutil de reposicionar o desconforto como inadequação. De devolver o excesso à esfera da subjetividade. Mas o que me atravessa não é excesso emocional. É modo de escuta. É corpo que percebe antes da linguagem. E que, mesmo em silêncio, já pensa.
Escrevi também à professora dos alunos. Expus o que vinha sentindo. Expliquei que não se tratava de reformular perguntas, mas de repensar o lugar simbólico a que minha presença estava sendo chamada. Ela me respondeu com cordialidade, mas sem rever o gesto.
Tudo seguiu delicado. E, justamente por isso, difícil de nomear. Porque não houve grosseria. Não houve violência explícita. Mas houve apagamento. Apagamento estrutural. Silencioso. Cortês. E, por isso mesmo, profundo. Porque o que me era pedido, em última instância, não era pensamento. Era funcionalidade. Minha experiência deveria servir. Ilustrar. Confirmar. E esse tipo de escuta (que organiza antes de ouvir) não me sustenta. Minha forma de saber não se produz por síntese. Ela desvia. Ela volta. Ela hesita. Ela pensa pelas bordas. Espirala. E por isso, muitas vezes, incomoda.
Fui chamada a participar, mas não para propor. Para reforçar. Para completar uma narrativa já esboçada em que minha função era mostrar que, apesar das dificuldades, é possível “dar certo”. Mas eu não sou exemplo. Sou atravessamento que pensa. E isso, por si, já é recusa. Não porque eu queira estar à margem, mas porque a margem, em mim, também fala.
Muito mais do que um talento específico, há em mim um modo radical de perceber. Um sentir que não se desliga. Um pensar que não se sacia. Uma escuta que não tolera o raso. Uma densidade que pensa mesmo quando não quer. Mesmo quando cansa. Mesmo quando dói.
Minha inteligência não opera por velocidade. Opera por mergulho. Não acelera. Espirala. Retorna ao mesmo ponto não para repeti-lo, mas para desdobrá-lo por outro ângulo. Minha elaboração é paciente, mas intensa. Exige tempo. Exige pausa. Exige espaço. E, acima de tudo, exige contorno ético.
Essa ética não se baseia em cordialidade, mas em escuta real. Uma escuta que acolha o que escapa. O que excede. O que desconcerta. E foi justamente isso que faltou. Não nas palavras, mas no gesto. No tom. No desenho relacional do convite. Convocavam-me para ajudar a formar, mas não reconheciam o gesto de pensamento que eu trazia. Esperavam que eu dissesse o que cabia, não o que transbordava. E eu sou transbordamento.
Cada gesto que veio (a escolha do canal de contato, o tipo de pergunta, a forma como responderam) indicava o lugar que me reservavam. E eu já conheço esse lugar. Estive nele outras vezes. É sempre o mesmo: o lugar de quem oferece sem ser escutada. De quem serve sem ser reconhecida como fonte. De quem é convocada não como quem pensa, mas como quem representa. Mas não aceito mais estar onde meu pensamento é requisitado sem ser legitimado.
Recusar, então, foi também escolher. Escolher não ser funcional. Escolher não ser moldada. Escolher não ceder o que sou em troca de um espaço que não me escuta. Minha recusa foi escrita. E por isso, ela continua.
Minha recusa não é só a recusa de uma fala. É a recusa de uma forma de escuta que não compreende que há corpos que pensam. Que há pensamentos que se escrevem como corpo. Que há experiências que não podem ser recortadas sem ferimento. Quando pedem que eu sirva como ilustração, algo em mim se contrai. Porque o que sou não se presta a uso. Não é matéria bruta para ser modelada ao gosto do outro. É matéria pensante. Matéria relacional. Matéria que só se oferece quando encontra espaço de contorno ético.
Minha forma de saber não é performativa. Não é domesticável. Ela não se mostra com fogos, nem busca impressionar. Ela demora. Ela volta. Ela afunda em detalhes que parecem pequenos demais para quem só quer chegar logo ao ponto. Mas eu sou o ponto. E sou também tudo o que o cerca.
Cada palavra que escrevo nasce do corpo que escuta antes de entender. Que percebe antes de nomear. Que hesita antes de aceitar. E essa hesitação é pensamento. É ética. É gesto de não se render ao que já está dado.
Sou chamada a falar. Mas o que querem de mim não é fala — é função. E é isso que recuso. Porque quando falo, falo inteira. Não trago só conteúdo. Trago forma. E a forma, em mim, pensa. A forma, em mim, afeta. A forma, em mim, é corpo.
O que esperavam de mim era previsibilidade. Mas o que sou é dobra. Esperavam o caso. Entrego a crise. Esperavam a confirmação. Entrego o corte. Esperavam que eu me moldasse. Entrego o excesso. E esse excesso, que em tantos contextos é tratado como inadequação, aqui se inscreve como política da existência. É ele que me obriga a não aceitar. A não reduzir. A não simplificar o que em mim é complexo por estrutura, não por ornamento.
A superdotação que me nomeiam não dá conta. Ela toca, mas não sustenta. Porque o que sou também ultrapassa. E é no transbordo que me reconheço. A superdotação, como conceito, me serve até certo ponto. Mas há momentos em que ela mesma me limita. Porque o que sou excede até os nomes que tentam me abrigar. E é nesse excesso que meu texto nasce: como corpo que se pensa, mas que também se rasga (e se refaz) no encontro com os outros corpos.
Escrever, então, não é explicar o que sinto. É deixar que o próprio texto funcione como eu funciono. Que ele pense como penso, que se dobre como me dobro, que hesite, que aprofunde, que entre nas frestas e se permita não concluir. Porque o texto, como eu, não termina em si. Ele se transborda. Ele se lança. Ele espera por uma escuta que seja também corpo.
E é por isso que, mesmo ao recusar, eu escrevo. Porque sei que há formas de dizer que não cabem na fala. Porque sei que há escutas que só se abrem quando tocadas por aquilo que perturba. Porque sei que há verdades que só se deixam entrever quando se escreve com todo o corpo.
Este texto não é resposta. É presença. E o que ele pede não é acordo. É escuta. Escuta como contorno, não como molde. Escuta como relação, não como captura. Escuta que permita ao outro existir em sua coreografia íntima, sem passo marcado, sem contagem imposta.
Porque há modos de saber que não se encaixam em roteiros prévios. Há vozes que não surgem para confirmar teorias, mas para deslocá-las. Há corpos que pensam e cujas ideias não cabem nos quadros da funcionalidade.
A superdotação que habita esses corpos não pode ser convocada apenas como exemplo, como dado exótico, como produtividade intensificada. Ela exige escuta crítica. Escuta que não se interesse apenas pelo talento, mas pela densidade do pensamento. Pela singularidade do sentir. Pela ética de existir com excesso.
Quem vive nesse excesso não quer ser compreendido como curiosidade ou caso raro. Quer ser ouvido como sujeito que pensa, propõe, tensiona. E se dança, não é para entreter. É porque há pensamentos que só se dizem em movimento. Porque há conceitos que só se revelam quando o corpo cria brechas no espaço e no tempo. Porque há epistemologias que só se sustentam se forem também coreografias da escuta.
Profa. Dra. Isabelita Maria Crosariol
IFSP – campus São José dos Campos
@projeto.vidamaisativa