Sinais

Quando me ouço tendo discussões acaloradas com pessoas que não estão presentes, 
e meu pulso acelera os batimentos porque argumento com personagens da minha imaginação, 
ou minha paz é abalada por fantasmas da minha trajetória que só existem na minha memória e na minha saudade… 
…é um sinal. 

Quando me pego perambulando sem propósito pelas ruas, 
pensando na insignificância humana perante a vastidão da galáxia, tentando decifrar os enigmas do papiro de Rhind, 
ou criando teorias para explicar o final de Interestelar… 
…é um sinal. 

Quando me flagro querendo trocar de lugar com qualquer pessoa que eu vejo simplesmente porque, ingenuamente, fantasio que suas aflições, suas decepções, suas esperanças, seu saco de ilusões, seu fardo existencial 
seja mais leve que o meu… 
… é um sinal. 

Quando qualquer país atormentado por conflito bélico ou guerra civil, ou devastado por uma calamidade climática; 
qualquer beco fedorento de uma metrópole desumana, 
ou qualquer deserto escaldante e desabitado do planeta 
parecem mais aconchegantes que o pôr-do-sol da minha varanda…
… é um sinal. 

Quando minhas papilas gustativas não conseguem diferenciar a pegajosa baba do quiabo da sofisticação de um Mouclade Charentaise, 
ou quando o gosto do café é mais amargo que o normal, 
tão amargo como se tivesse sido extraído da minha própria bile, e quando começo a
salivar olhando para a garrafa de whisky como se fosse uma cápsula de cianureto… 
… é um sinal.

Quando o sussurro rasgado e aveludado da Norah Jones não me faz arrepiar os pêlos atrás da nuca, 
ou o timbre cortante da guitarra do Jeff Beck não me faz estremecer e acreditar na perfeição, 
e preciso ouvir Metallica no último volume do meu fone de ouvido tentando ludibriar minha mente a não pensar, e o meu peito a não sentir… 
… é um sinal. 

Quando toda a grandeza dos versos de Fernando Pessoa parece pequena diante da enormidade do meu enfado, 
ou penso em usar os contos de Edgar Allan Poe para fazer crianças dormirem, e começo a achar as pinturas de Salvador Dali plausíveis e possíveis de existirem no mundo real… 
…é um sinal. 

Quando nem mesmo o dia mais colorido da primavera ou a brisa mais refrescante do outono são capazes de desfazer a náusea que embrulha meu estômago, quando começo a lembrar de todos os amigos e pessoas queridas que foram arrancadas da minha convivência, 
seja pela inexorabilidade da finitude, 
seja pela imprevisibilidade do existir; 
quando começo a me lembrar da localização de todos os cemitérios que já visitei e a pensar na frase que adornaria minha lápide… 
…é um sinal. 

É um sinal que preciso transpirar, 
seja pelo canto dos olhos, 
seja pelo topo da cabeça, 
é um sinal que preciso viajar… 
…viajar para ver o mar.

Por Tiago Biazus – UPF

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