Um pé na sala de aula

A prática pedagógica desenvolvida no contexto do estágio supervisionado I na educação infantil, componente curricular obrigatório do curso de Pedagogia da UPF, foi realizada com uma turma de pré-escola composta por crianças de 4 e 5 anos. A proposta teve como objetivo promover um espaço privilegiado de formação docente e aprendizagens significativas, a partir de um projeto investigativo direcionado pelos interesses das crianças e fundamentado nos princípios da escuta, do protagonismo infantil e da interdisciplinaridade.

A experiência com o projeto “Formigas” teve início a partir da escuta atenta das curiosidades das crianças, que demonstraram interesse em compreender onde esses insetos vivem e como se organizam. Essa escuta sensível, como destaca Rinaldi (2012), é um ato pedagógico fundamental, pois reconhece as crianças como sujeitos de direitos e produtoras de cultura, capazes de atribuir sentidos às suas experiências.

O desenvolvimento do projeto, inspirado na perspectiva dos Projetos de Trabalho de Hernández (1998), permitiu articular diferentes áreas do conhecimento e promover um processo de aprendizagem ativo e investigativo. O projeto não se limitou à transmissão de conteúdos, mas promoveu a construção coletiva do conhecimento, a partir da curiosidade e da experimentação.

O planejamento das atividades foi construído de maneira flexível e contínua. Após a primeira intervenção, fui aprimorando e reorganizando o planejamento conforme as observações e os registros realizados durante as interações com o grupo. Como ressalta Veiga (2008), planejar é um ato político e reflexivo, que exige compreender o contexto e transformar a realidade educativa a partir da escuta e da participação.

Imagem 1 – Planejamento e organização da sala


Enquanto futura pedagoga, em minha primeira experiência como titular em sala de aula, compreendi que planejar vai muito além de simplesmente organizar atividades: envolve sensibilidade, escuta atenta e intencionalidade pedagógica. Diferentemente da experiência como monitora ou assistente escolar, a docência exige perceber o que realmente mobiliza o grupo, criar situações que ampliem os repertórios das crianças e refletir continuamente sobre as próprias práticas. Essa vivência reforçou em mim a compreensão de que o educador é, acima de tudo, um aprendiz constante, que se forma e se transforma junto com as crianças.

Imagem 2 – Investigação, curiosidade e respeito

Imagem 3 – Ahh, natureza, espaço de desenvolvimento e vivências concretas

De acordo com Kishimoto (2017), o brincar é uma atividade essencial na Educação Infantil, pois permite à criança compreender o mundo, expressar emoções e desenvolver múltiplas linguagens. A cada observação e interação, eu anotava as reações, hipóteses e falas das crianças, o que me permitia repensar minhas estratégias e compreender o percurso de aprendizagem do grupo. Essa prática reflexiva me ajudou a entender que o papel do pedagogo é também o de pesquisador, alguém que observa, interpreta e transforma a realidade educativa a partir das vivências cotidianas.

Como afirma Freire (1996), “ensinar exige pesquisa, reflexão e curiosidade”. Essa ideia se confirmou ao longo do estágio: percebi que o ato de ensinar está profundamente ligado à capacidade de aprender com as situações, de repensar as práticas e de construir saberes com base nas experiências compartilhadas. Além disso, a integração entre ensino, pesquisa e extensão se fez presente em todo o processo, e a socialização das descobertas com colegas e familiares fortaleceu o vínculo com a comunidade escolar, demonstrando o potencial da escola como espaço de transformação social.

Concluo este percurso formativo com a certeza de que o estágio me proporcionou um aprendizado profundo e transformador. Compreendi que educar é um ato de compromisso ético, político e social, que exige sensibilidade, estudo e constante reflexão. Aprendi que o verdadeiro papel do professor não é apenas ensinar, mas criar condições para que as crianças aprendam, descubram e se expressem de múltiplas formas.

REFERÊNCIAS:

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 68. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

HERNÁNDEZ, Fernando. Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho. Porto Alegre: Artmed, 1998.

KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Jogo, brinquedo, brincadeira e educação. São Paulo: Cortez, 2017. 

RINALDI, Carlina. Pedagogia da escuta. Porto Alegre: Penso, 2012. Disponível em: https://pt.scribd.com/document/672567696/Pedagogia-da-Escuta-Carlina-Rinaldi.

VEIGA, Ilma Passos Alencastro. Projeto político-pedagógico da escola: uma construção coletiva. Campinas: Papirus, 2008. Disponível em: https://www.sinprodf.org.br/wp-content/uploads/2014/01/PPP-segundo-Ilma-Passos.pdf.

Por Kauane Donatti, acadêmica do 6º nível do Curso de Pedagogia UPF 

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