Amor líquido e espelhos mágicos

No começo do milênio, quando começamos a nos conectar com as pessoas pela internet, sequer tínhamos noção do quanto essa nova comunicação em rede impactaria a maneira como coexistiríamos com nossos semelhantes. Primeiro Orkut, depois o Facebook, Twitter, Instagram, uma sucessão de plataformas cada vez mais inovadoras, com mais e mais recursos que permitem nos aproximarmos de quem está longe. Em pouco tempo, curtidas, comentários e mensagens se tornaram os veículos das demonstrações de afeto, carinho e interesse romântico – ferramentas inerentes à expressão de sentimentos positivos e negativos. Hoje, tentamos consertar a nossa capacidade de amar sem elas.

A internet cria uma ilusão de companhia. Isto é o que dizia o sociólogo polonês Zygmunt Bauman: “a internet nos tranquiliza, afastando o medo de sermos abandonados. Na verdade, na maioria das vezes, estamos cercados de pessoas tão solitárias quanto nós”. Para ele, essas plataformas intensificam o fenômeno que marca as relações humanas contemporâneas: o amor líquido – laços frágeis que se fazem e se desfazem ao passe de um clique, tornando praticamente impossível a construção de conexões sólidas e duradouras. Assim se criou a sociedade do efêmero. Áudios acelerados, palavras abreviadas, mensagens abreviadas, sentimentos abreviados que não valem nem a tentativa de superar os percalços da jornada. Se perdeu a graça, se não é mais instagramável, para que continuar? Para de seguir, bloqueia, pronto e acabou. Esse é o nosso mundo onde faltam vírgulas e sobram pontos finais. 

Além disso, precisamos lembrar que para estarmos conectados não basta querer, é necessário ser interessante. Aí chegamos a outra questão que, junto da solidão, é uma constante na vida do homem pós-moderno: a insuficiência. A professora de psicologia da USP Henriette Tagretti lembra que, nas redes, as pessoas têm uma tendência a alterarem os aspectos de suas vidas que consideram desagradáveis. Logo, nasce um mar de rosas alternativo que só existe dentro dos servidores, inconcebível no mundo real. A busca incessante por se encaixar nesses padrões inalcançáveis, somada ao medo da rejeição caso não atinjamos essa meta gera uma sensação de inadequação que contamina nossos relacionamentos, nossa vida pessoal e profissional. Assim, cada indivíduo está sempre se comparando e se sentindo inferior, o que acarreta sentimentos depreciativos em relação a si e hostis em relação ao outro. É a partir desses sentimentos que se corroem as relações de trabalho, de amizade e familiares e, no fim, da sociedade como um todo.

Nas linhas da famosa saga Harry Potter, o personagem-título encontra um espelho mágico no qual vê realizado o desejo mais profundo do seu coração. Harry, um menino órfão que nunca recebeu amor, enxerga seus pais ainda vivos, sorrindo para ele. Ao quebrar várias vezes as regras de sua escola para se encontrar com o devaneio da vida perfeita, ele é advertido pelo sábio professor Dumbledore: “não vale a pena viver sonhando e se esquecer de viver”. Na era dos amores virtuais, amigos virtuais, famílias virtuais, temos que lutar para não esquecer que, no mundo real, sentimos muito mais, amamos muito mais e vivemos muito mais, afinal, o olho no olho sempre valerá mais do que a vida congelada pelos frames.


por Ederson Castro de Avila – Acadêmico do Curso de Jornalismo UPF

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