Editorial v.4, nº 1 – Jun. 2021

Juro pela minha honra que hei de dizer toda a verdade e só a verdade

Escrever é um juramento de verdade que o autor faz consigo mesmo. Da melhor forma possível, por métodos científicos, narrativos, poéticos ou sem método algum, o autor se esforça para alcançar a perfeita expressão através das palavras. E ao fazer isso, na maioria das vezes sem se dar conta, assina um contrato de responsabilidade consigo mesmo e tem o dever de ser fiel a sua verdade interior. O autor deve ser sincero consigo mesmo, com seus ideais. Todo dito seu entrega a sua essência única. A sinceridade é o primeiro dever do autor consigo mesmo. Mas não o único.

Há também o dever do autor com o outro e com o mundo. Ele deve reconhecer que uma vez lançado seu discurso, estes ditos fazem parte da materialidade dos fatos da vida e estão eternamente atados à responsabilidade que seus sentidos cobrarão do autor. Não falo apenas dos sentidos mal interpretados que o mundo fará do que é dito: não há garantia de sucesso na comunicação, é verdade, posso falar “b” e ouvirem “d”. Não falo disso. Falo de um dever do autor com o mundo que vai mais longe, que ultrapassa o limite do pensamento e independe da intenção do autor. Falo do poder que as palavras têm de agir e modificar o mundo: elas são atos tal como andar, cantar e correr. Elas animam, influenciam, afagam, agridem. E sobre os efeitos desses atos, querendo ou não, o único responsável continua sendo apenas o seu autor.

Isto significa que mesmo que o autor não tenha conseguido o efeito pretendido com o seu discurso, a responsabilidade de suas palavras pertence a ele e apenas a ele. Como Rodolffo que comparou o black power do João ao cabelo de um homem das cavernas no BBB, de nada importam suas intenções. Uma vez lançadas, suas palavras modificam o mundo e modificam as pessoas ao seu redor. Suas palavras são fatos: o autor responde por eles e será cobrado. A culpa é sua – com ou sem habeas corpus para ficar calado.

E quando este limite entre o que é dito e o que de fato acontece no mundo é dissolvido, quando reconhecemos que as palavras transformam o mundo material, nos resta apenas a fatalidade de admitir que somos autores a qualquer custo. E assumir esta posição é uma questão de honra a nós mesmos e ao mundo. Por conta disso, está muito claro que todos os que publicam nesta revista assumem sem medo suas verdades e honram seu dever enquanto autores.

A todos os que aqui publicam, que engatinham na vida acadêmica ou literária e esforçam-se para organizar sua melhor expressão no escorregadio terreno das palavras; que se esforçam para escrever seus ensaios, contos, resenhas, poemas e experiências de ensino e que passam horas e viram noites em busca do melhor arranjo de palavras; que não veem outra alternativa a não ser escrever: parabéns! Parabéns por assumirem sua autoria, sua verdade, o seu dever e por disporem seu talento a fim de modificar o mundo sem medo de dizer “eu”. Reconhecer o seu dever enquanto autores é a única maneira de assumir, de fato, o poder que as palavras carregam.

Boa leitura a todos.


Texto por Guilherme Alexandre da Silva – em nome da equipe Letrilhando

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