Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas

O poeta alemão Heinrich Heine avisou, ainda no século 19, em seu livro Almansor, que “onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas” e Ray Bradbury, mesmo talvez não tendo conhecimento dessa frase, exemplificou-a perfeitamente em Fahrenheit 451, publicado em 1953. A obra de Bradbury passa muito longe da literatura leve e que devoramos por ser gostosa. A sua obra é devorada por ser, ainda hoje, extremamente atual e sombria de uma maneira assustadora, pois, sendo uma distopia, é, na verdade, impregnada de realismos. 

Segundo Ray Bradbury, “ficção científica é uma ótima maneira de fingir que você está falando do futuro quando, na realidade, está atacando o passado recente e o presente”. Fahrenheit 451 é uma distopia que busca – e alcança com primor – criticar regimes autoritários de qualquer tempo e lugar, sendo assim, uma obra política que acabou sendo um dos livros mais censurados. Foi publicado em 1953 e, ainda assim, é alvo de curiosidade e interesse das novas gerações, que sempre “redescobrem” a incrível crítica social contida na obra de Bradbury.

O livro é dividido em três partes: “a lareira e a salamandra”, “a peneira e a areia” e o “brilho incendiário”. A história se passa em uma sociedade distópica na qual os bombeiros são chamados, não para apagar incêndios, mas sim para atear fogo aos livros. A queima de livros foi uma decisão tomada pela própria população que buscava não ter mais os incômodos proporcionados pela leitura: consciência crítica e desejo de mudar. As pessoas passaram a se interessar apenas por programas de televisão, com os quais os personagens poderiam ter “diálogos” completamente desprovidos de bom senso e de profundidade. 

A história é narrada em terceira pessoa, acompanhando o bombeiro Guy Montag, que leva uma vida resumida a queimar livros, conviver com a esposa que ele mal conhece e suprimir seus próprios pensamentos, até o dia em que ele conhece Clarisse McClellan e sua vida vira de ponta cabeça. Clarice o faz refletir sobre diversos aspectos que envolvem sua própria vida e as pessoas com as quais a compartilha. Montag decide que há algo errado na sociedade em que vivem a partir do momento que uma senhora prefere ser queimada juntamente com os livros que estavam em sua casa. Então, o bombeiro começa a se perguntar se é, realmente, feliz e como a sua vida chegou ao ponto atual. 

Após o acontecimento envolvendo a senhora que escolheu a morte ao invés de ficar sem seus livros, Montag começa a se questionar quanto ao conteúdo contido neles. Ele conjectura sobre como isso poderia levar pessoas a cometerem atos como aquele e como era a sociedade em que viviam antes de se tornar um lugar onde não mais existiam pensamentos críticos e diálogos profundos. 

A obra de Ray Bradbury é, sem dúvidas, atemporal e escandaliza coisas que são, muitas vezes, comuns na sociedade em que vivemos hoje: a repressão política, a falta de interesse pelo conhecimento, o consumismo exacerbado, o descaso com os indivíduos ao nosso redor, o fascínio negativo pela tecnologia, a falta de diálogo, o desprezo pelos livros. Mas é importante destacar que o livro não se trata apenas disso. Ele se trata do autor, de sua época, de sua vida, de seus conhecimentos, das palavras escolhidas para criar o mundo no qual a história se desenvolve, entre muitas outras coisas. Cabe a cada leitor decidir sobre o que, além do citado, pode ser a obra lida.Fahrenheit 451 é uma leitura essencial para quem acredita que os livros são, também, responsáveis por nosso pensamento crítico e nos permitem abrir asas e voar.


Resenha de Helen Giovana Ramos Dias, acadêmica de Letras – Português, Inglês e Respectivas Literaturas

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