Soberanos da subjetividade

 

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Freud enunciou que existem duas maneiras de acessar o inconsciente: os sonhos e a arte. Sendo assim, um quadro de Picasso e um livro de Dostoiévski são revelações de pensamentos que nem eles conseguiram alcançar. Dado isso, pode-se deduzir que a leitura da arte também é algo de caráter idiossincrático. É arbitrário o sentido que cada leitor irá atribuir ao conteúdo que consome, pois este sentido faz parte de um movimento interno inalcançável a outrem. 

    Assim, o autor perde posse da sua obra ao publicá-la. Aquilo que em mente foi edificado para produzir uma crítica específica pode facilmente passar despercebido pelo receptor da obra. E eis aqui a magia da leitura: não há limites para a interpretação. A leitura, seja ela de qualquer natureza, tocará em lugares diferentes para cada um. Numa metalinguagem estonteante, a subjetividade é subjetiva, pois não se pode defini-la, a única coisa que se sabe é que a frase que não toca a um é sublinhada por outro.

    Naturalmente, para além do âmbito psicológico, o contexto em que se lê algo influencia duramente a interpretação que o receptor tirará dali. Hoje, ao lermos Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, como sociedade, vemos ali a constante polêmica dos criminosos reincidentes. Porém, em seu ano de publicação, os leitores da época pesaram seus pensamentos sobre o existencialismo e o niilismo, que estavam em voga. 

    Da mesma maneira, sabe-se que tal leitura é recomendada àqueles que cumprem sentença nas prisões da Sibéria. Para esse grupo específico, a interpretação pode cair sobre a possibilidade de redenção, que, por sua vez, ao final da obra, é abordada em seu apogeu após o protagonista, Rodion Romanovitch, chorar aos pés de Sonia, a qual lia a bíblia. 

    Novamente, a individualidade de cada leitor nos agracia (e assombra). A personagem Sônia pode passar despercebida para os assassinos, mas para as prostitutas é protagonista, e mais que protagonista, é um símbolo. Uma prova literária de que mesmo a mais vulgar trabalhadora carnal ainda pode ser fiel devota a Deus. Por outra ótica, pode ser vista como uma crítica de Fiódor ao exacerbado catolicismo ortodoxo, o qual sempre odiou. E aprofundando mais ainda a questão, Anna Dostoievskaya, no passado, revelou que Sônia é a representação de uma filha de Dostoiévski, quem morreu ainda sem completar seu primeiro ano de vida.

    Assim, temos aqui hipótese e comprovação: a interpretação é plenamente livre e a subjetividade, indefinida. Dostoiévski, que na subjetividade de seu magnum opus buscou homenagear sua filha, acabou mais como crítico da Igreja do que pai em luto. E a interpretação da sua obra, por sua vez, muda a cada ano, profissão, trauma e ferida de quem a lê. Pecam aqueles que acreditam ser isso um problema – a pluralidade da leitura é seu artifício mais rico e perigoso.

    Por outra ótica, focando em regimes opressivos com presença forte de censura, esses dois recursos são grandes aliados – aliás, jamais foram vilões. Tomando como exemplo a música Cálice, de Chico Buarque, podemos analisar concretamente a questão. Nos anos de chumbo do Brasil (1964-1985), regime marcado pelo estupro de todos os âmbitos, do político ao físico, a mobilização contrária a esses abusos vinha, majoritariamente, do meio musical. Na tentativa de passar sua mensagem ao povo diariamente violado, Milton Nascimento e Chico Buarque formularam Cálice, cuja letra é extremamente ambígua e não abre espaço para certezas. 

    Numa primeira análise, o título já nos apresenta uma possibilidade de interpretação. A sonoridade da palavra Cálice pode ser facilmente confundida com o verbo Cale-se, o que sugeriria uma oração pedindo que se afastasse a censura. 

“Pai, afasta de mim esse Cálice (3x)

De vinho tinto de sangue”. 

    Em seguida, ao fazer o complemento “de vinho tinto de sangue”, os autores sugerem que a censura militar era violenta, fato este que nunca faltou com a verdade, uma vez que ela era o pilar direito do regime. Contudo, o caráter indefinido da subjetividade garantia aos compositores que se safassem de qualquer acusação concreta. A livre interpretação, por sua vez, barganhava que qualquer um que ouvisse a dita canção poderia construir diferentes sentidos. Ora, se não há nenhuma certeza, quem garante que Milton e Chico, de fato, não queriam beber sangue? Resposta imediata: ninguém. Por isso a mobilização de massas se deu tão facilmente pelo meio musical. Por um lado, não havia provas concretas que pudessem ferir a sensível censura do governo, e por outro, a música sempre possuiu uma abrangência maior do que a literatura, por exemplo.

  Os fenômenos que dão nome a esse ensaio sempre foram de tamanho poder que é possível identificá-los até mesmo nas linguagens não verbais. A exemplo da obra Guèrnica, de Pablo Picasso, é possível retirar da caótica pintura interpretações infindáveis, mesmo que seu artista tenha delimitado uma mensagem. Para seu ano de exposição, foi uma forte mensagem contra a Guerra Civil Espanhola, que desorganizava a Europa e separava os membros do corpo, como a própria pintura sugere. Contudo, nas circunstâncias brasileiras de genocídio também ocorre uma construção de sentido: o ar anárquico de incerteza e morte, os corpos agonizando, a guerra ao fascismo. Embora Pablo tenha deixado uma mensagem especialmente denotativa (Foram vocês que fizeram isso”) quanto à crítica de seu quadro, nunca foi seu dono. As circunstâncias são donas da arte. 

    Assim, novamente refém da metalinguagem, encerro subjetivamente: somos realmente soberanos de algo? 


Escrito por Isabella Menegat

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