Apagão de professores ou professores apagados?

Ontem participei de um processo seletivo em uma instituição de ensino. A ocasião assemelhava-se a uma reflexão prática de matemática aplicada à vida real, temperada com uma pitada de ironia institucional. Imagine a cena: três representantes da instituição, sete candidatos selecionados e uma única vaga, com carga horária garantida de apenas dez horas. Sim, dez. Era como enfrentar um sistema com excesso de incógnitas e escassez de soluções: um curioso experimento que nos leva a questionar a tão propalada ideia do “apagão de professores”. 

Aliás, fica a pergunta: se realmente estamos diante de um apagão, por que havia sete candidatos disputando uma única vaga que, mês a mês, nos obrigaria a sermos economicamente criativos? Talvez se trate de outro tipo de apagão — não de profissionais, mas de condições minimamente atraentes. Um fenômeno digno de investigação estatística. 

Por um instante, calculei mentalmente a probabilidade de sucesso. Com sete candidatos para uma única vaga, a chance era de 1/7 — uma fração que, dadas as circunstâncias, parecia muito mais próxima de um exercício de abstração do que de uma oportunidade concreta. 

Enquanto os avaliadores estavam dispostos como vértices de um triângulo equilátero, congruentes e conduzindo a dinâmica de maneira aparentemente uniforme, nós, candidatos, éramos pontos dispersos em um plano cartesiano, tentando desesperadamente localizar a interseção entre competência, carisma e necessidade. 

Apresentei-me com um toque de humor e, em um leve desvio padrão de ousadia, sugeri que seria excelente se houvesse vagas para todos. Disse, de forma exclamativa: “Se eu fosse o contratante, contrataria todos, afinal, o conjunto é qualificado.” Ouvi risos discretos, acompanhados de expressões que revelavam compreensão. No entanto, percebi rapidamente que a função ali era restritiva: de domínio amplo e imagem reduzida. 

E então, internamente, questionei-me: como poderei pagar de professor se não conseguirei pagar as contas? Enquanto argumentava diante dos avaliadores, refletia sobre o dado mais relevante do problema: a vaga de horista, com apenas 10 horas garantidas. Fiz o cálculo com a serenidade de quem já se deparou com esse tipo de função: se considerarmos um cenário moderado em que 40 horas rendem R$ 4.000, então 10 horas resultariam em R$ 1.000 — um pouco menos que um salário mínimo. Um valor que não chega a surpreender, mas confirma muitas hipóteses. 

Como horista, os benefícios são quase conceitos teóricos: existem, mas nem sempre se materializam. Recebe-se pelo que se leciona — o que significa que férias, feriados ou cancelamentos transformam a renda em uma função descontínua, com quedas abruptas dignas de um gráfico em queda livre. 

Durante a entrevista, o ambiente assumiu ares de teorema: cada pergunta era uma hipótese, cada resposta, uma tentativa de demonstração. Alguns candidatos recorriam à indução; outros, à geometria da simpatia. Eu, por minha vez, segui pela lógica proposicional. Contudo, como em muitos sistemas reais, a lógica nem sempre assegura solução. 

No fim, tudo parecia uma equação de segundo grau: duas possíveis soluções — aprovação ou reprovação. Contudo, com apenas uma vaga, a parábola da esperança possuía um único vértice de felicidade limitada e os demais permaneciam distribuídos ao longo do eixo das frustrações. 

E quanto ao chamado “apagão de professores”? Talvez seja mais honesto denominá-lo “apagão de condições” ou “apagão de valorização”. Afinal, professores existem — e em abundância. O que falta é transformar essa equação em algo resolvível. Trata-se de um apagão de estímulo, de reconhecimento, de políticas que tornem a profissão sustentável.

Espero não ter amarrado meu jumento no palanque de um banhado. Que, em breve, em outras entrevistas, eu possa recorrer à prova por absurdo: assumir o contrário do que se deseja demonstrar e, a partir dessa suposição, chegar a uma contradição. Que essa contradição revele que as hipóteses iniciais formuladas em minha mente não passam de alucinações. 


Jefferson de Oliveira,
Acadêmico de Matemática na Universidade de Passo Fundo – UPF

Deixe um comentário