No fim da tarde, a estação parecia o de sempre: passos, pressa, sussurros que ninguém escuta. Nada ali chamava atenção, mas Anna surgia como quem carrega uma história que já vem conturbada antes mesmo de acontecer.
Ela andava devagar, mas havia urgência em seus olhos. Um tipo de urgência que não faz barulho, só se percebe. Aquele jeito de quem tenta encontrar um lugar no mundo e percebe, pouco a pouco, que o mundo não está oferecendo lugar nenhum.
Nos rostos ao redor, ela via julgamento antes mesmo de abrir a boca. A sociedade sabe apontar o dedo com elegância, e Anna sentia esse peso todo dia, como se cada gesto seu precisasse caber numa moldura que nunca foi feita para ela.
Mas ela não era moldura.
Era movimento.
Busca.
Desejo que não aceita ficar parado.
O amor, quando chegou, não pediu permissão. Veio como uma força inteira, dessas que a gente tenta conter, mas escapa por dentro. Anna tentou segurar, tentou organizar, tentou se comportar, mas não tem como domesticar algo que nasce indomável.
E, naquela ou nessa época, amar fora da regra era quase crime. Ela sabia disso. Mesmo assim, continuou. Não por rebeldia, mas porque recusar o próprio coração também é uma forma de morrer.
Enquanto o trem se aproximava na estação, ela escutou o som que misturava o ritmo e o medo. E, de certa forma, aquilo traduzia bem o que sentia, tudo avançando rápido demais, tudo pressionando, tudo exigindo mais do que ela podia dar.
Não foi um gesto impulsivo.
Foi o acúmulo.
A falta de ar que ninguém viu.
A busca que não encontrou lugar.
A estação, depois, seguiu seu dia. Gente entrando, gente saindo, como sempre. Mas quem observou com atenção percebeu que havia algo no ar, um silêncio diferente, como se a história dela tivesse ficado ali pairando, pedindo que alguém, finalmente, entendesse.
E talvez seja isso que permanece,
a lembrança de uma mulher que tentou existir num mundo pequeno demais para a grandeza de suas próprias perguntas.
por Liliane Aguiar Rossi
Graduação Geografia (UPF)
Pós graduada em educação especial- trabalho hoje na rede de educação básica como professora de AEE, em Caseiros e Ibiraiaras RS
Pós graduanda em educação PPGedu UPF (mestrado)