1 Para início de conversa
O ensino de Português para Falantes de Outras Línguas (PFOL) tem se consolidado, nos últimos anos, como um campo de formação cada vez mais relevante dentro dos cursos de Letras (graduação e pós-graduação), especialmente em instituições que recebem estudantes internacionais. Ao refletir sobre esse movimento (UPF, 2024), destacamos que a presença crescente de intercambistas nas universidades brasileiras, bem como na UPF, amplia não apenas a circulação do português em contextos acadêmicos, mas também as possibilidades de atuação docente, permitindo que futuros profissionais vivenciem práticas reais de ensino de línguas adicionais. Essa perspectiva reforça a compreensão do PFOL como um espaço de formação que articula teoria, prática e internacionalização, favorecendo experiências pedagógicas que dialogam com a diversidade linguística e cultural presente no ambiente universitário.
Em 2026, esse cenário ganha novos contornos no Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) e no curso de Letras UPF, onde o curso de português para estudantes internacionais, vinculado ao projeto de extensão Linguagens e Práticas Sociais, tem possibilitado vivências significativas tanto para estudantes não brasileiros quanto para a professora responsável, evidenciando o compromisso da formação docente voltada às demandas acadêmicas e regionais, com impacto social e intercultural abrangente.
Diante disso, este texto apresenta brevemente o suporte teórico que dá sustentação aos cursos de PFOL na UPF e traz a experiência da professora Camila Docena, acadêmica do PPGL, como docente da turma 2026-1.
2 O curso de português na UPF
O Interacionismo Sociodiscursivo (ISD), fundamentado nos estudos de Bronckart (1999) e na tradição Vygotskiana, constitui o eixo teórico que orienta as práticas pedagógicas dos cursos de PFOL desenvolvidos na UPF. Ao conceber a linguagem como uma forma de ação social e como instrumento que nos humaniza, o ISD permite compreender que aprender uma nova língua envolve muito mais do que dominar estruturas gramaticais: trata-se de participar de práticas sociais, construir sentidos e negociar identidades em contextos reais de interação. Essa perspectiva se materializa no trabalho com gêneros textuais diversos, que funcionam como mediadores das ações humanas e possibilitam que os estudantes estrangeiros se apropriem de modos de dizer e agir próprios do ambiente acadêmico brasileiro.
Nesse processo, a interculturalidade emerge como princípio indispensável, pois aprender uma língua adicional implica também compreender e dialogar com outras formas de ver o mundo. Inspirados em Lane (2012), entendemos a aprendizagem intercultural como o desenvolvimento de conhecimentos e habilidades que permitem aos estudantes interagir com pessoas de culturas distintas, reconhecendo diferenças, negociando sentidos e construindo pertencimento. Essa dimensão se articula diretamente ao ISD, uma vez que as práticas de linguagem são sempre atravessadas por valores, histórias e modos de vida. Assim, ao integrar textos literários, músicas e manifestações culturais brasileiras, o curso promove experiências que ampliam a compreensão dos estudantes sobre a sociedade brasileira, o contexto acadêmico da UPF e, simultaneamente, valorizam os repertórios culturais que eles trazem consigo. Dessa forma, o ensino de português se torna um espaço de encontro, negociação e construção conjunta de sentidos, reafirmando o caráter social, histórico e intercultural da linguagem.
3 O curso no contexto de 2026
Neste ano de 2026, o curso de português para estudantes internacionais está sendo ministrado pela professora Camila Docena, graduada em Letras Português/Inglês, acadêmica de mestrado do PPGL UPF. Camila desenvolve sua pesquisa voltada ao ensino de línguas adicionais no campo da linguística aplicada, sendo que a experiência em ensinar português como língua adicional agrega qualidade e novas perspectivas à sua formação acadêmica e profissional.
Entre os intercambistas que a UPF recebeu neste primeiro semestre de 2026, estão falantes de espanhol com poucos conhecimentos de nosso idioma. São duas estudantes mexicanas, vindas da Universidad Autónoma de Coahuila, para o curso de Odontologia e uma estudante oriunda da Argentina, da Universidad Nacional del Centro de la Provincia de Buenos Aires, que realiza Pedagogia; além delas, tivemos a presença de uma estudante uruguaia da Universidad Tecnológica del Uruguay entre abril e maio, que realizou um estágio de pesquisa de curta duração, no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil e Ambiental.
O curso vem sendo oferecido há muitos anos na UPF e o material sempre foi produzido pelos professores e estudantes envolvidos, com base em diferentes fontes. A cada semestre, ele é revisado e adaptado à realidade e às demandas de cada turma. O curso tem um total entre 30 e 40 horas de atividades presenciais, objetivando principalmente auxiliar os estudantes em sua adaptação no contexto universitário.

Fonte: Arquivos do autor
4 Experiência formativa em 2026
Em 2026, a professora Camila Docena, mestranda do PPGL e graduada em Letras Português/Inglês pela UPF, assumiu a turma de português para estudantes internacionais, vivenciando uma nova etapa em sua trajetória docente. Com quase oito anos de experiência no ensino de língua inglesa, ela encontrou no PFOL um espaço para desenvolver seus conhecimentos sobre ensino de línguas adicionais, mesmo enfrentando o desafio de não dominar o espanhol. As aulas têm sido conduzidas majoritariamente em português, com momentos de apoio em espanhol e, quando necessário, em inglês, o que favoreceu a negociação de sentidos e a construção colaborativa do aprendizado.
Os conteúdos selecionados tiveram como foco facilitar as interações cotidianas das estudantes no ambiente universitário e oferecer subsídios linguísticos essenciais ao uso do português. As atividades contemplaram leitura, escrita, oralidade e compreensão auditiva, além do trabalho com textos literários, poemas e músicas brasileiras, reforçando a dimensão intercultural do processo de aprendizagem. As intercambistas demonstram grande envolvimento e frequentemente trazem para a sala de aula situações vivenciadas no dia a dia, enriquecendo as discussões e ampliando o repertório linguístico do grupo.
Entre as principais dificuldades relatadas pelas estudantes estão a compreensão e a pronúncia de sons específicos do português, que diferem significativamente do espanhol. Embora as línguas apresentem semelhanças, especialmente na conjugação verbal e no vocabulário, as diferenças fonéticas impactaram a comunicação inicial, tornando-se um aspecto central do trabalho pedagógico. Após dois meses de curso e de imersão no contexto acadêmico e social da UPF, já foi perceptível a evolução das alunas, que passaram a utilizar o português com maior segurança e frequência.
5 Palavras finais
O conjunto de reflexões e experiências apresentadas evidencia que o ensino de PFOL no PPGL e no curso de Letras consolida-se como um espaço formativo que articula teoria, prática e internacionalização. A proposta reafirma o papel do ISD e da interculturalidade na construção de aprendizagens significativas e na inserção dos estudantes internacionais no ambiente acadêmico da UPF. Ao mesmo tempo, fortalecem a formação docente ao promover práticas de ensino interculturais que ampliam horizontes. Assim, o PFOL se destaca como ação de impacto social, acadêmico e humano, sustentada pela construção compartilhada de sentidos.
Referências:
BRONCKART, J.-P. Atividade de Linguagem textos e discursos: por um interacionismo sócio-discursivo. São Paulo: EDUC, 1999.
LANE, H.C. Intercultural Learning. In: Seel, N.M. (eds) Encyclopedia of the Sciences of Learning. Springer, Boston, MA. 2012. https://doi.org/10.1007/978-1-4419-1428-6_242
UNIVERSIDADE DE PASSO FUNDO. Projeto Linguagens e Práticas Sociais. Ensino do português para falantes de outras línguas (PFOL): ampliando as experiências de formação no curso de Letras. Revista Letrilhando, 4 dez. 2024. Disponível em: https://letrilhando.com/2024/12/04/ensino-do-portugues-para-falantes-de-outras-linguas-pbfol-ampliando-as-experiencias-de-formacao-no-curso-de-letras/ . Acesso em: 25 de abril de 2026.
Luciane Sturm
Doutora em Letras (UFRGS), professora do PPGL UPF e coordenadora dos cursos de PFOL na UPF.
Camila Toledo Docena
Estudante de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Letras UPF – bolsista Capes I. Graduada em Letras e Jornalismo também pela UPF.