O botão que nunca desliga  

Dia desses, peguei ônibus para ir pagar uma conta no centro da cidade, quando percebi que quase ninguém mais olha pela janela. Fazia tempo que eu não utilizava transporte público, acho que desde a faculdade, quando recentemente lembrei-me do quanto era produtivo o caminho para a aula, que durava cerca de meia hora apreciando a cidade pela janela. Embora chateada pelo aplicativo de pagamento online não estar funcionando, pude reparar um cenário intrigante: os rostos se inclinavam para as telas com a devoção silenciosa de quem consulta um oráculo. Fiquei imaginando as diversas possibilidades dialogadas entre os personagens e aquele aparelho: estaria um estudante pedindo à inteligência artificial um resumo de filosofia? Alguém fazendo terapia com o ChatGPT? A cena pode parecer banal, mas, para mim, revela uma terceirização não apenas de tarefas, mas de partes inteiras da experiência humana.

Desde a Revolução Industrial, a humanidade alimenta a crença de que toda inovação representa progresso inevitável. As máquinas a vapor reduziram distâncias e alteraram radicalmente a relação do homem com o tempo; os computadores transformaram informação em velocidade; e agora, a inteligência artificial surge como a etapa mais ambiciosa desse percurso, prometendo simplificar não apenas tarefas mecânicas, mas a própria atividade de pensar, interpretar e decidir. O fascínio diante dessa capacidade é compreensível, sobretudo em uma sociedade que aprendeu a valorizar produtividade e eficiência acima de profundidade, porque, em poucos segundos, algoritmos conseguem produzir imagens, músicas, relatórios e respostas que antes exigiam estudo, elaboração e experiência humana acumulada.

No entanto, existe um deslocamento perigoso acontecendo de forma quase imperceptível: a velocidade, que deveria ser apenas um instrumento, começa a ocupar o lugar do conhecimento; a resposta imediata passa a valer mais do que a reflexão; e o esforço intelectual, elemento fundamental para a construção do pensamento crítico, é gradualmente tratado como algo obsoleto, cansativo ou desnecessário. Nesse contexto, a inteligência artificial não altera apenas a maneira como trabalhamos, mas também modifica silenciosamente nossa relação com a dúvida, com a paciência e com o próprio ato de compreender o mundo, criando a ilusão de que saber é apenas acessar informações rapidamente, quando, na verdade, compreender exige tempo, conflito interno, memória e maturação — processos que nenhuma máquina é capaz de experimentar.

O filósofo Byung-Chul Han afirma, em Sociedade do Cansaço, que o indivíduo contemporâneo vive submetido a uma lógica de desempenho contínuo, na qual a produtividade deixa de ser apenas uma exigência econômica e passa a constituir um valor moral. Nesse contexto, a inteligência artificial se integra de maneira quase perfeita ao imaginário da eficiência absoluta. Trabalha-se mais porque a velocidade das máquinas cria a ilusão de que tudo deve ser entregue imediatamente; responde-se sem demora porque o silêncio passou a ser interpretado como falha, desinteresse ou desperdício de tempo. A aceleração permanente converte o descanso em culpa, como se interromper o fluxo de produção significasse desafiar um sistema incapaz de reconhecer limites humanos. Assim, aquilo que deveria ampliar possibilidades acaba, paradoxalmente, aprofundando o esgotamento cotidiano.

Todavia, a experiência humana da criação sempre dependeu da pausa, da contemplação, da lenta maturação do pensamento… Clarice escrevia como quem escutava o movimento íntimo das palavras e perseguia aquilo que existe antes mesmo de ser plenamente formulado; Drummond transformava cenas banais e intervalos silenciosos da vida cotidiana em matéria poética; já Machado construía sua ironia refinada porque observava o comportamento humano com atenção minuciosa, explorando ambiguidades que apenas a lentidão permite perceber. A inteligência artificial, por mais sofisticada que se torne, não contempla o mundo nem experimenta a densidade emocional da existência. Ela reorganiza dados, identifica padrões e prevê probabilidades estatísticas; contudo, sentir o peso de uma lembrança, a vertigem de uma ausência ou a inquietação produzida pela perda permanece sendo uma experiência exclusivamente humana.

Por essa razão, defender a necessidade de parar não implica propor um retorno nostálgico a um passado idealizado, tampouco negar os avanços proporcionados pela tecnologia. O que está em questão é a preservação de espaços de consciência em meio ao excesso de estímulos que fragmentam continuamente a atenção. Ler um livro sem interrupções digitais, caminhar sem a mediação constante dos fones de ouvido ou sustentar uma conversa sem transformar cada dúvida em pesquisa automática são gestos aparentemente simples, mas que restauram formas de presença cada vez mais raras. Em uma realidade marcada pela hiperconectividade, essas pequenas interrupções da lógica produtivista permitem recuperar algo que a velocidade tecnológica dificilmente oferece: a capacidade de habitar plenamente o instante.

Talvez o maior perigo da inteligência artificial não resida na fantasia de máquinas dominando seres humanos, como sugerem tantas narrativas de ficção científica, mas em um processo mais silencioso e, justamente por isso, mais difícil de perceber. O risco está na formação de homens e mulheres tão condicionados à aceleração constante que já não conseguem distinguir entre viver e apenas funcionar. Quando toda experiência precisa ser útil, imediata e mensurável, a própria subjetividade se reduz a desempenho. Nesse cenário, parar deixa de representar perda de tempo ou improdutividade: transforma-se em um gesto de resistência contra uma cultura que exige movimento incessante e que, ao eliminar o silêncio, ameaça também eliminar a reflexão, a sensibilidade e a profundidade da experiência humana.

por Gabriela de Oliveira Zimmermann, Doutoranda em Letras pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e Mestra pela mesma instituição.
Professora de Língua Portuguesa, Língua Inglesa e Produção Textual. 

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