Uma experiência de estágio internacional: o que aprendi em uma escola da França 

Este relato de experiência tem como objetivo compartilhar como foi minha experiência como acadêmica de mestrado do Programa da Pós-Graduação em Letras da UPF em um estágio internacional na França. Sou graduada em Jornalismo e Letras, também pela UPF, e atuo como professora de inglês há quase oito anos. A oportunidade que tive, de ver e viver o ensino de inglês em outra língua, a partir de outra cultura e de um diferente sistema educacional foi enriquecedora e ampliou as minhas perspectivas profissionais e de pesquisa. 

No dia 31 de dezembro de 2025 eu estava saindo do Brasil para iniciar uma experiência que nunca imaginei viver: passar 6 semanas fazendo um estágio em uma escola de ensino fundamental como professora de inglês na França! Essa oportunidade surgiu por meio do programa de intercâmbio New Generations Service Exchange – NGSE, do Rotary Club. O programa conecta jovens universitários e profissionais, de 18 a 30 anos, a experiências pelo Brasil e pelo mundo. Meu interesse surgiu a partir do contato com o Rotary Club de Passo Fundo, que esteve divulgando seus programas no evento Uma Noite pelo Mundo da UPF, realizado em 2025, em função do acordo de colaboração com nossa instituição. Como na época eu estava estudando francês, foi sugerido que eu me inscrevesse para ir à França.

Um tempo depois, recebi a notícia que tinha sido encontrada uma oportunidade para mim em uma escola privada de ensino fundamental, na cidade de Nogent-Le-Rotrou, que fica no norte do país, a 2 horas de Paris. Eu iria acompanhar a professora de inglês e auxiliar os alunos durante as tarefas, mas a minha experiência acabou sendo ainda mais rica! 

A escola Delfeuille Saint-Joseph é o que se chama em francês de “collège”, pois atende somente alunos que estão na fase equivalente ao nosso Ensino Fundamental II, do 6º ao 9º ano. A diretora Fabienne Grandpierron foi extremamente receptiva e abriu todas as portas da escola para mim, pois, além do trabalho com a professora de inglês, eu também pude frequentar as aulas de francês com as turmas (onde aprendi muito sobre conjugação, treinei minha escrita e até fiz provas com os alunos!); além das aulas de história e geografia, em que participei para conversar sobre o nosso país. 

Os alunos têm aulas de segunda à sexta-feira, das 8h às 16h30, exceto nas quartas-feiras, em que as aulas ocorrem somente pela manhã. A escola também oferece ateliês aos alunos, que são aulas optativas que podem ser distribuídas dentro do horário normal ou que acontecem após às 16h30min. As atividades são variadas, indo do teatro à sofrologia, tendo inclusive ateliês de inglês (que são períodos mais livres de estudo da língua, em que a professora traz atividades diferentes e culturais). Nas sextas-feiras, os alunos do 6º ano também têm um período para fazer temas e estudar, em que uma professora os auxilia.

Em um dos ateliês de inglês, fizemos uma aula de culinária, em que ensinei os alunos a fazerem o nosso brigadeiro a partir da receita em inglês.
Fonte: Instagram @delfeuille.st.joseph.

Pude conversar muito com os professores, em especial com a professora de inglês e as professoras de francês, que também trabalham com a literatura. Registrei algumas dessas conversas e compartilho a seguir como são trabalhadas as leituras e a língua inglesa.

O incentivo à leitura e o trabalho com a literatura 

Em uma das primeiras aulas das quais participei no turno da tarde, assim que os alunos se sentaram, a professora pediu para que eles pegassem seus livros e lessem. Ela veio me explicar que essa era uma ação da escola que se chama “Silence, on lit!” , algo como, “silêncio, estamos lendo!”, em que sempre no primeiro período da tarde, independentemente da matéria, todos os alunos devem ler por 15 minutos. Achei aquela ideia fantástica e, todos os dias, esperava ansiosa por aquele momento, já que, inclusive, os professores paravam para ler. Muitos alunos tinham seus livros na mochila, mas aqueles que não tinham podiam pegar livros ou revistas que ficavam nas estantes das salas. 

A professora de francês que mais acompanhei se chama Françoise Hémery. Ela trabalha com as turmas do 6º e 8º ano. A sala de aula dela era cheia de trabalhos dos alunos e citações de grandes escritores franceses nas paredes, e tinha estantes com muitos livros (que ela inclusive emprestava aos alunos para lerem em casa). As turmas do 6º ano que acompanhei estavam trabalhando com uma versão adaptada para crianças do livro 16 Metamorfoses de Ovídio.

A professora explicou que em cada série são trabalhados quatro livros em aula e eles devem ler mais três ou quatro em casa. Essas leituras devem ser registradas em um “Caderno de Leitor”, que é uma espécie de diário de leitura. Nele, os alunos devem falar sobre as histórias que leram, fazer ilustrações e o que mais quiserem, sendo que esse registro é uma das notas do trimestre.

Exemplo de um dos cadernos feito por uma aluna do 6º ano.
Fonte: Arquivo pessoal.

Em cada ano, as leituras devem ser feitas dentro de temáticas pré-estabelecidas pelo Boletim Oficial do Ministério da Educação da França, que organiza os programas de ensino para cada disciplina (bem como a BNCC por aqui). Para as leituras, são definidas grandes temáticas para cada ano, sendo que o Ministério indica algumas obras, mas o professor não é obrigado a usá-las, tendo liberdade para escolher quais livros quer trabalhar dentro dessas temáticas. No 6º ano, por exemplo, uma das temáticas era os “relatos de origem”, e por isso a professora escolheu trabalhar com 16 Metamorfoses de Ovídio. Outra temática do 6º ano são os Romances de Aventura e a professora já escolheu trabalhar com Le Royaume de Kensuké, uma história que os alunos gostam bastante. Para as leituras feitas durante o ano na escola, cada aluno deve ter seu próprio exemplar, sendo que os pais devem adquirir os livros indicados. 

Na escola, todos os professores utilizam a ideia de sequência para organizar suas aulas, muito similares à organização das sequências didáticas definidas por Dolz, Noverraz e Schneuwly como  “[…] um conjunto de atividades escolares organizadas, de maneira sistemática, em torno de um gênero textual oral ou escrito” (2004, p. 96). Sobre a sequência de trabalho com 16 Metamorfoses, a professora compartilhou suas atividades:

“Para essa sequência eu comecei com uma árvore genealógica dos deuses, porque nesse livro fala-se bastante deles e os alunos se perdem um pouco na mitologia grega e latina. Depois pedi para que eles escolhessem uma das metamorfoses e que apresentassem aos colegas. Na apresentação, eles tinham que responder às perguntas: quem tinha sido transformado? Por quem? Em quê? E por que motivo?”, contou. A sequência seguiu com atividades de compreensão e comparação entre as metamorfoses.

Segundo a professora, grande parte da leitura é feita em casa, mas eles também têm momentos para ler na escola, seja durante o “Silence, on lit!” ou em momentos de término de atividade, já que os celulares também não são permitidos lá. A professora percebe que os alunos dos anos finais leem menos, mas que no 6º anos eles são ótimos leitores. 

O ensino de inglês

Minha principal atividade na escola era acompanhar a professora de inglês Sophie Lereau. Ela era responsável pelas turmas do 7º ao 9º ano, o que totalizava 6 turmas, além dos ateliês de inglês. Ela possui mais de 30 anos de experiência em sala de aula, tendo estudado inglês, literatura inglesa e gramática na Universidade de Lille. 

Ela explica que na França, o contato com o inglês começa geralmente na escola primária. Porém, como nem sempre o professor dessa fase tem conhecimento da língua, os alunos aprendem apenas cores, números, músicas… sendo que o inglês, de fato, começa a ser estudado no 6º ano. A professora relatou que não existem escolas de idiomas como temos aqui. Alguns alunos têm a oportunidade de ter aulas de língua com um professor particular, mas é algo muito raro. 

Para as aulas de inglês, atualmente os professores seguem o CEFR (Quadro Europeu Comum de Referência para Línguas) que divide os níveis de proficiência no idioma. Em cada nível existe uma lista de conteúdos linguísticos que deve ser dominada e isso guia o trabalho da professora, junto com quatro temáticas definidas pelo Ministério da Educação que devem ser parte das aulas de inglês, que são: imigração, sociedade, escola e viagens. O professor pode seguir um livro didático, mas Lereau relata que os inspetores, que fazem avaliações das aulas de tempos em tempos, não gostam dessa prática. “Eles dizem que quando você ensina uma língua estrangeira é importante que você crie toda a sequência, então eu decido os temas e eu tento criar a minha sequência com pontos gramaticais, fonética, vocabulário, que segue o programa”, contou. 

Porém, no próximo ano, o programa do governo para o ensino de inglês vai mudar e serão 5 tópicos para serem trabalhados em cada nível, além de um país falante de inglês. Por exemplo, no sétimo ano, os eixos de trabalho serão: 1. Retrato, autorretrato; 2. O cotidiano: lugares, ritmos, estações; 3. O real e o imaginário; 4. Escola e lazer; 5. Línguas, lugares, histórias; 6. O Reino Unido. “Assim todas as escolas estarão trabalhando as mesmas coisas em todos os níveis, o que será mais fácil para nós, por exemplo, quando temos um aluno novo, pois estaremos vendo as mesmas coisas em todos os lugares. No momento, nós somos muito livres para fazer o que nós gostamos de fazer, desde que seja em inglês, mas no ano que vem vai ser mais guiado”, comentou.

Sobre a criação das sequências, Lereau diz que a primeira coisa que escolhe é a avaliação final. “Por exemplo, na sequência que fiz sobre Nova Iorque, eu gostaria que eles apresentassem oralmente um lugar famoso de lá, falando sobre a sua história. Então eu penso: para fazer isso eles precisam ser capazes de saber algumas palavras da cidade, eles vão precisar saber o passado simples, eles precisam dos superlativos… então eu listo o que eles vão precisar para a tarefa final e crio a sequência a partir disso, incluindo vocabulário, gramática, textos… É assim que eu faço as sequências e essa é a maneira que eles [o Ministério da Educação] nos pedem para fazer”, relata. 

As turmas têm 3 períodos de inglês por semana, e a professora tenta fazer com que as sequências durem em torno de 5 aulas, sempre focando em atividades diferentes para cada dia. Os alunos são constantemente avaliados por meio de pequenas avaliações, que geralmente avaliam uma habilidade por vez. Há uma avaliação sobre vocabulário, outra somente com um texto para compreensão… Ela conta que adotou essa prática para checar se os alunos estão aprendendo as lições ao longo da sequência e, por conta disso, não existe uma grande prova final, mas sim um trabalho que coloca a língua em uso. 

A professora tem um entendimento claro sobre a função do inglês na escola: “O meu objetivo é fazê-los entender que o inglês e qualquer outra língua estrangeira pode ser divertido de aprender e que é algo útil, pois quando você vai para qualquer lugar é uma língua internacional, que você vai conseguir se comunicar com pessoas de qualquer país através dela, e que ela também é necessária em qualquer trabalho que eles queiram fazer”, afirmou a professora. 

Para mim, viver a experiência de um estágio internacional durante a pós-graduação representou uma oportunidade de ampliar meu olhar sobre o ensino de línguas em contextos variados. A convivência com diferentes professores e alunos, a observação de diferentes metodologias e os desafios vivenciados ao longo desse período, imersos em uma nova cultura escolar, contribuíram significativamente para a minha formação, fortalecendo reflexões que dialogam com minha trajetória na pós-graduação e com a minha pesquisa na área do ensino da língua inglesa. Acredito que experiências como essa ressaltam a importância da internacionalização no percurso do mestrado, ao possibilitar, além de trocas interculturais, o desenvolvimento crítico e novos entendimentos sobre práticas de ensino, formação docente e construção de conhecimento em uma perspectiva plural1

Referências:

DOLZ, J.; NOVERRAZ, M.; SCHNEUWLY, B. Sequências didáticas para o oral e a escrita: apresentação de um procedimento. In: SCHNEUWLY, B.; DOLZ, J. Gêneros orais e escritos na escola. Tradução e organização: ROJO, R.; CORDEIRO, G. S. São Paulo: Mercado de Letras, 2004. p. 95-128. 

Camila Toledo Docena
Estudante de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Letras UPF – bolsista Capes I. Graduada em Letras e Jornalismo, também pela UPF.

  1.  Agradeço imensamente à todos que tornaram essa experiência possível, em especial ao Rotary Club de Passo Fundo e ao Rotary Club de Nogent-Le-Rotrou – La-Ferté-Bernard. ↩︎

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