Canopus

Eu não consigo mais contar os minutos,
as horas, os dias.
Tudo o que faço é estar:
embebedar-me desta luz que se anuncia.

Eu acredito no calor dourado das mãos,
nas ceias de Réveillon, nos amigos, nos meninos.
Mas não pertenço a este tempo de ilusão,
em que mentiras ditam o caminho.

É possível tanger a idade sob os pés descalços,
no toque molhado do oceano, da areia, nos passos em falso, no peso do não.

Então, escute: sente-se aqui, pegue uma cerveja.
Mede comigo o ar, o cosmo, o espaço entre as estrelas; a que distância estão?

Essas são turvas eras e incógnitas tatuadas na treva,
novos navios, traços que nos transbordam.
Recortes, histórias e constelações; riscos de um mesmo ponteiro.
São noites sombrias e tento preenchê-las; você também; ambos em vão.

Não porque não sentimos o mundo passando,
mas porque as suas marcas, aos poucos, apagam do mapa o fogo.
Suave cicatriz em azul, em seus olhos sempre sutis.
Quem disse que a vida sempre foi assim?

Eu não consigo mais contar as tragédias
neste teatro de loucos, raros e falsos querubins.
Eis o nosso novo lar, espetáculo maldito,
um fim de festa sem fim.

Sentir o brilho fresco da manhã
é ter um momento no rosto a desamar,
com um perdão renovado, quase perigoso,
o tempo em uma arma cheirando a pólvora, calibrado.

A cor do céu tem apenas um gosto:
o amargo inevitável do envelhecer.
Pois tudo apodrece e aprende, tarde demais,
a navegar pelo mais doloroso sim de cada ser.

Canopus, grata lâmpada da escuridão,
cultiva meu crescer no teu cintilar.
Esmaga sob sua proa meu passado, meu amanhã,
as dores dos homens, ressaca do universo, a espuma do mar.  

por Denny Cezar, professor, formado em Letras pela UPF, especialista em Ensino e Aprendizagem de Língua Inglesa

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