As línguas de imigração, também chamadas de línguas de herança, são idiomas trazidos por comunidades de imigrantes que se estabeleceram no Brasil e que, embora não integrem a esfera oficial do Estado, foram preservados no âmbito familiar, comunitário e religioso, constituindo importantes marcadores identitários. No Sul do Brasil, esse fenômeno é particularmente expressivo, resultado da intensa chegada de europeus a partir do século XIX. Entre essas línguas, o polonês ocupa um lugar singular, sobretudo no Rio Grande do Sul, onde comunidades polônicas, presentes em municípios como Áurea, Casca, Santo Antônio do Palma, Nova Prata, Erechim, Ijuí, Guarani das Missões, entre outros, mantiveram práticas linguísticas e culturais mesmo diante das políticas de nacionalização e da pressão histórica pelo monolinguismo em português (Rocha, 2004; Fiepke e Sturza, 2017).
Hoje, o polonês falado no estado, frequentemente caracterizado como uma variedade híbrida marcada pelo contato prolongado com o português e com outras línguas de imigração, representa não apenas um patrimônio cultural, mas também um campo fértil para pesquisas que contribuam para a valorização da diversidade linguística dentre tantas outras possibilidades. No âmbito do Programa de Pós-Graduação em Letras da UPF, as pesquisas sobre línguas de imigração ou línguas de herança, muitas delas também reconhecidas como línguas adicionais e, em alguns municípios, cooficiais, desempenham um papel estratégico ao promover discussões sobre narrativas, memórias, diversidade e práticas linguísticas que constituem a identidade de nosso povo. Outro aspecto relevante é o resgate do idioma e seu aprendizado que traz inúmeros benefícios para as comunidades, como a interação e a humanização.
É nesse contexto que iniciativas como o projeto “Em polonês no Brasil. Construindo uma imagem positiva da língua e da cultura polonesa no ambiente acadêmico da Universidade de Passo Fundo” / „Po polsku w Brazylii. Budowanie pozytywnego obrazu języka i kultury polskiej w środowisku akademickim Universidade de Passo Fundo” tornam-se essenciais para fortalecer a presença e a legitimidade dessa herança linguística no cenário contemporâneo. O projeto, de caráter internacional, foi proposto pelo Instituto de Línguas Românicas da Universidade de Wrocław (UWr) e está em desenvolvimento com a colaboração da UPF, da Universidade de Vilnius (Lituânia) e da Universidade Nacional Ivan Franko de Lviv (Ucrânia), as duas últimas que também investigam a presença do polonês em seus territórios, em razão de processos históricos e geográficos que atravessam séculos.
Na UWr, a equipe é composta pela Dra. Magdalena Krzyżostaniak, Diretora Adjunta de Educação, e pela Dra. Marta Minkiewicz, professora de polonês, espanhol e português, ambas estudiosas vinculadas ao Instituto de Estudos Românicos da Faculdade de Línguas Modernas. A proposta foi aprovada e financiada pela NAWA (Agência Nacional Polonesa para Intercâmbio Acadêmico), órgão do governo da Polônia responsável por coordenar o processo de internacionalização das universidades polonesas. Na UPF, o Projeto constitui o Programa de Internacionalização em Casa, oportunizando a internacionalização do currículo de acadêmicos, professores e funcionários, além de integrar a comunidade regional, já que todas as atividades são abertas aos interessados em geral.
Mais especificamente, participam os Programas de Pós-Graduação em Letras e em História, representados pelos professores Dra. Luciane Sturm, Dra. Fabrício Vicroski e Dra. Gizele Zanotto; pelas acadêmicas Gabriela Golembieski (doutorado PPGL); Patricia Braciak Steven (mestrado PPGL) e pela professora Ma. Eduarda Ongorato, egressa do PPGH.
As atividades do projeto iniciaram em março, no formato online, com seis palestras bilíngues (português/polonês) que abordaram temas como as relações polono-brasileiras, interfaces entre história, língua e cultura; a origem dos colonos poloneses que imigraram para o Brasil; o legado dos brasileiros de origem polonesa; e a história, diversidade e situação atual da língua polonesa na Polônia, no Brasil, na Lituânia e em outros países. As transmissões reuniram, em média, entre 80 e 120 participantes: brasileiros descendentes e não descendentes de poloneses, estudantes universitários e pesquisadores interessados na temática.
Entre os dias 4 e 15 de maio, a Dra. Marta Minkiewicz esteve presencialmente na UPF, onde proferiu palestras sobre a Polônia contemporânea. Nesse período, a comunidade universitária e regional também teve acesso a um curso introdutório de língua polonesa, oferecido tanto no Campus de Passo Fundo quanto no Campus de Casca, município em que o polonês é reconhecido como língua cooficial.
O projeto segue em andamento e prevê novas palestras online, além da elaboração de um manual de ensino de língua polonesa voltado a falantes de português, considerando o contexto sociolinguístico brasileiro. Também estão previstas atividades de tandem linguístico, que promoverão interações entre estudantes brasileiros e falantes de polonês, ampliando o conhecimento da língua e da cultura polonesa.
A participação do PPGL neste projeto reafirma o compromisso do PPGL com estudos socialmente situados e sensíveis à diversidade linguística que caracteriza nossa região. Ao promover o estudo, a circulação e o ensino da língua polonesa, bem como a sensibilização sobre a cultura, o PPGL possibilita a ampliação do campo de investigação, fortalecendo sua conexão internacional. Mais ainda, nossa participação neste Projeto reforça a vocação do Programa para articular pesquisa, formação e extensão, aproximando a UPF e a comunidade e reafirmando o papel da instituição como espaço de salvaguarda, reflexão e promoção do patrimônio linguístico-cultural que constitui a memória viva de nosso território.
Referências
FIEPKE, R. B. ; STURZA, E. R. . A política linguística na Era Vargas e seus efeitos na vida dos descendentes de imigrantes alemães em Nova Machado – RS. Ribanceira, v. 1, p. 121-132, 2017.
ROCHA, S.. O poder da linguagem na Era Vargas: o abrasileiramento do imigrante. In: Celsul – Círculo de Estudos Linguísticos do Sul, 2004, Florianópolis. Celsul. Florianópolis: UFSC, 2004. v. 6. p. 190-191.
por Dra. Luciane Sturm,
professora do Curso de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras da UPF.
Desenvolve projetos de extensão vinculados ao PPG que dialogam com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030, fortalecendo a universidade como espaço de transformação social. Atualmente, coordena a Assessoria Internacional da UPF, trabalhando para aproximar pessoas, instituições e saberes.


