Editorial – “Escreva um texto sobre”: a inteligência artificial em sala de aula

A presença, cada vez maior, da tecnologia no ensino tem resultado em muitas mudanças nas dinâmicas de sala de aula. Onde antes repousavam apenas cadernos, canetas, lápis e borrachas, hoje observamos notebooks e tablets. Os espaços físicos são os mesmos, mas as ferramentas de estudo mudaram. Não se fazem mais pesquisas através de livros e visitas à biblioteca, tudo pode ser encontrado na Internet, a poucos cliques. Além disso, a inteligência artificial (IA) tem sido um recurso muito utilizado para economizar tempo e diminuir esforços nos trabalhos de pesquisa, pois em poucos segundos pode produzir resumos, resenhas e, até mesmo, artigos completos. 

Surge aí uma preocupação. Se a IA, acatando a alguns comandos específicos, pode elaborar trabalhos inteiros, que simulam a autoria humana, como evitar que isso se torne prática comum entre os estudantes? Não podemos negar a utilidade desse tipo de recurso tecnológico, principalmente na otimização do tempo, porque nos permite o acesso à inúmeras informações ao mesmo tempo, como também auxilia no cumprimento de atividades extenuantes que não requerem tanto esforço intelectual, mas são burocráticas. Então, como definir um limite no uso de IA como ferramenta de auxílio no ensino, impedindo seu emprego como agente de produção dos trabalhos dos alunos?

Nas instituições de ensino superior, esse assunto tem sido muito debatido. Os acadêmicos e pesquisadores são estimulados a ponderar sobre as questões éticas envolvidas nessa prática, a fim de evitar que as produções de conhecimentos científicos sejam minadas pela IA de maneira indiscriminada. Inclusive, em março deste ano, o CNPq publicou uma portaria que institui diretrizes para o uso de IA na atividade científica, com o intuito de garantir qualidade e integridade nas produções acadêmicas. Entretanto, a IA está acessível a todos, o que nos faz pensar em como está sendo utilizada pelos alunos da escola básica.

Nossa preocupação é em como está sendo trabalhado o desenvolvimento cognitivo dos alunos, considerando a presença constante da IA. Sabemos que os jovens têm maior familiaridade com as tecnologias do que os adultos, o que cria uma distinção na maneira como estudantes e professores encaram a inteligência artificial. Alguns professores acreditam que se trata de coisa passageira e não de uma transformação permanente da realidade escolar. Mas a IA veio para ficar e novas tecnologias ainda virão. Não podemos discutir, então, sobre proibição, mas sobre a integração das ferramentas tecnológicas como facilitadoras de aprendizagem.

É necessário, portanto, que os docentes da educação básica criem condições de construção de conhecimento com o uso da IA, estimulando esse exercício para determinados fins, que não o de elaboração integral de trabalhos. As produções autorais dos alunos devem ser encorajadas e valorizadas, para que eles compreendam a importância da construção de suas identidades autorais. Os estudantes precisam entender que o objetivo não é apresentar textos perfeitos, mas feitos por eles mesmos, com possibilidade de serem sempre aprimorados. Para que isso seja possível, os professores precisam passar por um processo de letramento digital que os prepare para esses novos desafios tecnológicos.

A leitura de textos acadêmicos e literários é um exercício que requer confiança na autoria. Um escrito só é relevante se feito por um ser humano, com suas particularidades e contexto distinto. Não queremos ler textos produzidos por máquinas, sem sensibilidade e intencionalidade humana. Por isso, nós da revista Letrilhando estamos sempre promovendo, acolhendo e divulgando, com compromisso ético e responsável, as produções criativas da nossa comunidade.

por Marcelo dos Santos – em nome da equipe Letrilhando.

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