Ó, doce Nastenka, que falta você faz.
Meu quarto fede à ausência. O ar pesa como se tua sombra ainda se demorasse nos cantos, contemplando minha miséria com teus olhos grandes, aflitos, como quem pede desculpas por existir.
Não sei mais se foste real. Às vezes, acho que te inventei para que minha tristeza tivesse um rosto. Mas, então, encontro teu lenço amassado entre as páginas do meu velho Dostoiévski – e o mundo inteiro estremece.
Tu eras feita de primavera mal resolvida, de gestos que tremiam como velas ao vento. Nunca soube se me amavas ou se apenas vias em mim um reflexo borrado do que querias ser. Mas isso importa? Amor verdadeiro não é aquele que se consome mesmo sem retorno?
Uma vez me disseste, entre lágrimas que caíam com mais honestidade que tuas palavras: “Há coisas em mim que nem eu entendo’’. Como se eu já não soubesse. Eu via, Nastênska. Via tua alma costurada com fios de medo, teu coração como um quarto trancado, onde ninguém ousava entrar – nem tu mesma.
E eu entrei. Entrei sem bater.
Agora carrego o castigo. Caminho pela cidade como um fantasma que sabe o nome da própria lápide. As luzes me ofendem, os risos me insultam. Há dias em que conversar com uma parede me parece mais razoável do que com qualquer outro ser humano.
Mas, ainda assim, se voltasses… Ah, se voltasses com teus olhos de tragédia e mãos trêmulas, eu te amaria de novo, mesmo sabendo que isso me destruiria outra vez.
Porque, Nastenka, minha ruína tem teu nome.
Por André Luiz Folchini, acadêmico do nível 3 do curso de Letras – Português e Inglês UPF